
A Garota Que Não Queria Lembrar, de Maggie Lehrman | Resenha
‘A Garota Que Não Queria Lembrar’: uma leitura que nos obriga a confrontar os nossos próprios sentimentos
Cuidado com o que deseja. Taí uma frase que nunca fez tanto sentido quanto no livro A Garota Que Não Queria Lembrar, de Maggie Lehrman, publicado pelo selo Pavana, da editora Alaúde. Uma leitura contagiante e incômoda, que nos leva a refletir profundamente sobre a nossa maneira de lidar com as adversidades. Que mostra a dualidade do ser humano. E que não existe um ser humano totalmente bom ou mau. Existe apenas um ser humano. Diferente e único em relação aos seus medos, incertezas e inseguranças. Cada um de nós enfrenta os obstáculos de uma forma, expressa os sentimentos da maneira que se sente mais confortável e nem por isso está mais certo ou errado do que o outro. E isso a autora soube debater muito bem na obra.
Na obra, acompanhamos Ari e seus amigos tendo que lidar com a morte do namorado dela, Win. Sem conseguir superar a perda, Ari recorre a um feitiço para apagá-lo de sua memória. O problema é que ela não é a única a fazer uso de feitiços para fins pessoais, e esses feitiços têm um preço. A partir daí, uma série de eventos (inclusive passados) revela as conexões um tanto quanto sombrias entre Ari, seus amigos e Win e mostra as consequências de atos quase sempre impulsivos e egoístas.
Desde o primeiro momento em que recebemos o livro num kit lindo enviado pela editora, fui completamente enfeitiçada, com o perdão do trocadilho. Achei a sinopse bastante interessante e, como já disse em algumas resenhas, tenho uma queda por histórias que envolvem qualquer tipo de magia. E A Garota Que Não Queria Lembrar não foi diferente do que eu esperava. Pelo contrário. O livro conseguiu prender a minha atenção desde a primeira página e permaneceu nos meus pensamentos, mesmo depois de concluída a leitura. Digo isso porque, mesmo sendo uma ficção, é impossível não se colocar no lugar dos personagens. Se esses feitiços estivessem acessíveis a nós, será que não iríamos recorrer a eles para “consertarmos” aquilo que achamos não ter solução? Será que não iríamos querer nos livrar de qualquer sofrimento, dos nossos medos mais obscuros?
Maggie nos apresenta a história através do ponto de vista de quatro personagens: Ari, Markos, Kay e… Win. Sim, o livro alterna entre passado e presente e, com isso, conseguimos construir uma linha do tempo e entender o que os levou até o momento em que a trama começa e principalmente os resultados das suas atitudes. Cada um desses quatro personagens traz uma perspectiva diferente sobre como seria recorrer a métodos considerados ilegais (no livro, as heckamistas, que são as mulheres responsáveis por fazer esses feitiços, são ilegais) e o quanto isso afetaria não apenas nós mesmos, mas todos ao nosso redor. É muito interessante a construção e a desconstrução de Ari, Markos, Kay e Win, e também de Diana e Echo, duas personagens “secundárias”, mas que possuem funções igualmente importantes. A autora soube trabalhar toda a fragilidade e a ambiguidade do ser humano com muita sutileza, mas de forma bastante firme e reflexiva. A ideia de representar a nossa dificuldade em lidar com perdas e adversidades através de “feitiços caseiros encomendados” é ousada e instigante para a nossa imaginação.
Por isso mesmo, achei muito difícil simpatizar com boa parte dos personagens. Apenas Win me gerou empatia, principalmente porque ele, sim, tinha um problema sério e já não tinha mais controle sobre ele mesmo, infelizmente. Aliás, outro ponto positivo do livro é levantar questões sobre o luto, depressão, solidão, autoestima, preconceito, entre outros assuntos extremamente delicados, mas que precisam – cada vez mais, hoje em dia – ganhar destaque, especialmente entre os jovens. Foi difícil simpatizar com Ari, Marcos e Kay porque é difícil aceitarmos os nossos defeitos e sermos confrontados. É difícil aceitar que somos, sim, egoístas e capazes de, no desespero, pensarmos apenas em nós mesmos e no nosso sofrimento, sem ter qualquer consciência do quanto nossas decisões impensadas podem afetar aqueles que estão bem do nosso lado. É difícil entender que somos todos diferentes e temos o nosso próprio tempo, o nosso próprio luto. É difícil aceitar que nem sempre temos aquilo que queremos, que as coisas geralmente não saem do jeito que desejamos – e que nem por isso está tudo errado ou ruim. Que nem sempre vamos agradar a todos. E ver tudo isso bem na “nossa frente”, através desses personagens, cada um representando uma dessas facetas, foi realmente difícil. E muito, muito incômodo. Confesso que, de todos, a que mais me perturbou, digamos assim, foi Kay. Não que eu não entenda e não me compadeça do seu sofrimento, mas o problema é que Kay deliberadamente envolveu outras pessoas em seus problemas, sem se preocupar – em nenhum momento – com os efeitos de seus atos.
A escrita de Maggie é leve, sensível, fluída e muito natural. Tanto que realmente ficamos com uma sensação agridoce ao término da leitura, tanto por termos lido uma boa obra quanto pela reflexão que ela nos trouxe. A Garota Que Não Queria Lembrar realmente mexe com a gente. É como se os nossos próprios sentimentos fossem colocados à prova, junto com Ari, Markos, Kay e Win. Como se os efeitos encarados por eles rebatessem na gente. Que magia é essa Maggie Lehrman?
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